17/06/2017

A vida é feita de milagres

...e um deles é ser capaz de escrever isto hoje, depois do post que escrevi ontem. Há milagres.
Não aconteceu nada. Não mudou nada, excepto dentro de mim. A luz acendeu-se. E eu vejo que se me desiludo com pessoas é porque estou a viver.
E se tenho memórias que doem e se carrego saudades e uma ternura imensa por quem já não faz parte da minha vida, é porque tudo valeu a pena. Se não houvesse esta dor, era porque nada havia a recordar ou perdas a lamentar.
Se tudo isto existe significa que eu também existo, e existem comigo escolhas e emoções.
E tudo é um milagre. Podia ser caos, a nossa vida. Mas é um milagre (quase) ordenado.

Imagem retirada da internet

16/06/2017

Há dias em que a estupidez sai à rua.

As pessoas que me rodeiam vão-me desiludindo.
A besta do facebook recebe-me com fotografias antigas porque acha que eu vou gostar de recordar que neste dia, há 4 anos atrás, estava mais feliz do que estou hoje, a passear e a descobrir sítios novos e acompanhada da pessoa que me fez tão feliz.
Toda a gente faz planos melhores do que os meus, mas sinceramente eu não tenho pachorra nem energia para fazer planos iguais ou semelhantes.
O calor deixa-me rabugenta e irritável, mas a outros parece que lhes diminui as faculdades cognitivas, só me saem empecilhos e monos.
Desespero e desanimo... não sei se o que tenho em mim é mais tristeza ou raiva.
E chafurdo neste mau humor, rebolo e cubro-me toda com ele. Não tenho vontade nem imaginação para mais. Não vou levantar a cabeça e endireitar os ombros só porque me dizem que é o melhor que posso fazer. Se não me apetece, se não estou nesse estado de espírito, vou ao menos ser verdadeira.
Se dentro de mim a luz hoje está apagada, então não vai haver artifícios luminosos nas janelas só para que quem passa de fora pense que está tudo normal. 

12/06/2017

Conheço uma pessoa que conhece um senhor... Por acaso é brasileiro mas isso não concorre para esta história. Esse senhor é casado e diz a quem quer ouvir que não precisa da mulher para nada. Não precisa da mulher para ser feliz. E ela sabe disso. E esse é o maior elogio que ele poderia fazer-lhe.
É que ele, na verdade, não precisa dela. Mas escolheu estar com ela. Ele era já um homem inteiro e pleno e gostou tanto dela que a escolheu para partilhar essa existência serena com ela. E ela aceitou-o de igual modo. Não há ali necessidade, dependência, conveniência, um cobertorzinho quente ou um aquecedor de pés. Há a vontade de partilha, deliberação em ser companheiro, ser mais e melhor do que seria ser sozinho.
Isto parece prólogo para um filme ou um livro, mas é real, segundo ouvi dessa pessoa minha conhecida. E é uma bonita lição.
Quantos de nós se identificam com aquela forma de ser? Algum dedo no ar? O meu não, certamente... Mas se der para aprender este estado de ser, eu vou consegui-lo.

11/06/2017

Sobre viver no presente, por John Steinbeck

Em "As Vinhas da Ira"

"- Mãe... a senhora está com medo da viagem, não está? (...)
- Um pouco, sim - disse. (...)
- E não pensa no que nos vai acontecer quando lá chegarmos? Não tem medo de que não seja tão bom como a gente imagina?
- Não - respondeu ela rapidamente. - Não tenho medo . Não há-de ser assim. nem quero pensar nisso. Seria o mesmo que viver muitas vidas ao mesmo tempo. Há mil vidas que nós poderíamos viver, quando chega o momento de escolhermos uma, apenas.  Se eu me puser a pensar em tudo o que poderá acontecer, não aguento. (...) para mim, o futuro resume-se na estrada que corre a meus pés."

08/06/2017

O terramoto

Há dois dias atrás a terra tremeu. Diz-se que o epicentro foi em Amarante mas o abalo fez-se sentir aqui, a 50 kms de distância, mas nem toda a gente deu por ele. Eu, que estava num segundo andar, com o piso em soalho, senti o rugido em crescendo e aos poucos a sensação gelatinosa debaixo dos pés. Quando desci ao rês-do-chão e comentei o abalo com os colegas que estavam sobre granito, eles disseram que não tinham dado por nada.
Isto fez-me pensar que, nos tremores de terra como nos abalos emocionais, estarmos no mesmo lugar não é sinónimo de sentirmos os mesmos fenómenos. Depende da altitude a que nos encontramos e do que são feitas as nossas fundações.

01/06/2017

Drive - The Cars


Esta musica tocou no casamento, quase no fim da noite daquele que foi um dos dias mais tristes da minha vida.
Dia que começou desastrosamente quando, ao cumprimenta-lo de manhã, lhe elogiei a beleza e a elegância do fato e em troca recebi um "obrigado" estéril, que não se fez acompanhar de igual retribuição. Gelei até ao fundo da alma, a visão ficou enevoada e o dia tornou-se cinzento, dentro e fora de mim.
No fim da noite passou esta música e, numa das muitas tentativas para restaurar o laço que se ia quebrando irremediavelmente, segredei-lhe que esta é uma das musicas da minha vida, que se algum dia ele quisesse comover-me com um gesto, como o noivo e a noiva fazem para surpreender e agradar um ao outro, aquela música na banda sonora faria metade do trabalho...
Abri-lhe assim o meu coração em poucas palavras. Não esperava ser chamada para dançar, ele não era dessas coisas. Mas também não esperava que as minhas palavras caíssem no vácuo, como aconteceu.
Hoje, mais de um ano depois, vejo a profecia. "you can't go on thinking nothing's wrong. Who's gonna drive you home tonight?"
Naquela noite foi ele. Mas a dor ficou plantada e a seu tempo foi arrancada.

31/05/2017

"Em toda a adversidade do destino, a condição que gera mais infelicidade é o facto de se ter sido feliz." Boécio, De Consolatione Philosophiae

É esta a suprema frustração da humanidade. Carregar memórias que, por comparação, tornam mesquinhas as perspectivas do futuro, se a nosso imaginação e fé não forem suficientemente fortes para crer que há melhor ainda por vir.

Diz que para se saber o que é o doce, tem que se conhecer o sabor do amargo. Mas voltar ao amargo depois de experimentar o doce é intolerável.