06/11/2017

Cada qual tem aquilo que merece

...ou aquilo que aceita.
Tenho um casal de canários. Ela é uma marota. Ele é um banana. Quando lhes vou pôr dois pedacinhos de maçã, se puser o primeiro pedaço junto ao poleiro onde ele está, ela salta para lá, expulsa-o e, quando coloco o segundo pedaço no poleiro onde ela estava anteriormente, agora ocupado por ele, ela regressa para lá, expulsando-o novamente, e ele lá regressa ao poleiro inicial e ao pedaço de maçã que ela rejeitou.
Imagino que quando se encontra no café com os amigos ele tome uma de duas atitudes: ou mente descaradamente, dizendo que lá em casa é ele quem manda, e basta-lhe a admiração dos outros, mesmo sabendo lá no fundo que é um banana cobardolas. Ou então assume o papel de vítima, porque ela é uma tirana e nem lhe dá hipótese e açambarca sempre o melhor poleiro.
Em qualquer um dos casos, o meu canário é um banana desprezível, que não é perseguido pelo azar. Ele é perseguido pelas escolhas que faz ou pelas escolhas que os outros fazem por ele e ele aceita.
O mundo está cheio de canários como o meu. E, um dia destes, eu cometo um suicídio social porque vou abrir a boca e chamar banana quando os ouvir queixar e choramingar que têm azar na vida...

30/09/2017

Há coisas maravilhosas!

Sou tão pragmática que às vezes lamento insistir em descobrir as engrenagens que fazem as coisas acontecer, ou atribuir os milagres do dia-a-dia ao acaso puro, em vez de ser daquelas pessoas sonhadoras que vêem a fada Sininho despejar os seus pós mágicos sobre as coisas comuns.
Mas hoje, escolhi acreditar na magia e recebi como um sinal do Universo o gesto aleatório de abrir um livro de citações para ver o que ele me diria.
Hoje é um dia que já foi especial no meu calendário. A pessoa que o fazia especial não faz parte da minha vida há tanto tempo mas inevitavelmente recordo-o e questiono-me, sempre!, estará bem? Estará melhor ou pior do que comigo? Lembrar-se-á de mim com o mesmo carinho com que me lembro dele? Ou ter-me-à rancor? Seguirá o mesmo caminho, um caminho de agocentrismo, ambição e vaidade, que foi em ultima análise, o que nos separou? Ou terá aprendido com o erro e não voltará a cometê-lo com o seu novo amor?
Todas estas questões. A resposta que recebi do livrinho foi:
"E então, enquanto os outros se entregam à insaciável busca de ambição e à sede de poder, eu estarei na sombra, a cantar." Fray Luis de León
Até me arrepiei.

08/09/2017

10 de Setembro - Dia do Vinho do Porto

...ou, como gostamos muito de mostrar como falamos bem inglês, Port Wine Day!

Ao contrário do que é meu hábito, hoje não vou fazer um post egocêntrico. Hoje, só hoje, abandonemos o meu Sistema Brisar (para quem aqui venha parar pela primeira vez, é o Sistema  Planetário do qual Briseis é o centro), e vamos reflectir sobre este lodo vergonhoso que vem emporcalhar a história de uma das jóias nacionais.
A Região Demarcada do Douro, primeira região demarcada e regulamentada do mundo (se forem leigos no assunto, vão lá perguntar ao tio Google o que é que isto quer dizer), foi criada por um decreto do Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, que ficaria para a História como Marquês de Pombal, assinado a 10 de Setembro de 1756. Exactamente. No ano a seguir ao Terramoto. Assim nunca mais se esquecem.
Logo por aqui, o dia deveria ser o Dia da Região Demarcada do Douro. Mas pronto, a demarcação foi para servir e defender a qualidade daqueles que viriam a ser mais tarde baptizados oficialmente de vinhos do Porto, por isso, podemos simplificar. Não quero ser picuinhas.
Em pleno final de semana celebratório, eis que a Região em festa recebe jornalistas, bloggers, gente gira dos mais variados países. Vêm para ser recebidos pelos donos de organismos e agências, quintas e operadores, directores e RPs, servidos com todas as cerimónias e regalias, fazer programas charmosos e exclusivos, e ter uma experiência que vão relatar lá nas suas revistas, blogues, livros, publicações, com palavreado finório a elogiar a generosidade da natureza, o labor do homem, a doçura do vinho e o dom de bem servir destas gentes.
Hipócritas. Se querem avaliar, venham sem se fazer anunciar. Paguem o bilhete de entrada. Misturem-se com os turistas ocasionais, ouçam o que os guias têm para oferecer. Às vezes são cassetes gravadas, mas há sítios com contadores de histórias maravilhosos. Serão servidos com menos pompa mas é isso que o turista que vem vai ter. Em vez disso, a região patrocina as viagens de um punhado de privilegiados que vão relatar experiências artificiais, para não dizer, enganosas.
Isto, no dia em que vi a notícia sobre algo que toda a gente desconfia que vai acontecendo, mas que não se menciona, porque se não se falar é como se não fosse verdade. Acerca da exploração dos trabalhadores nas empresas marítimo-turísticas. No rio, como em terra.
A notícia está aqui https://www.publico.pt/2017/09/08/local/noticia/denuncia-de-medo-e-escravatura-nos-barcos-do-douro-sai-a-rua-1784736

30/08/2017

Fui vítima de bullying. Claro que no meu tempo não se chamava assim, nem era um flagelo reconhecido ou que merecesse atenção. Era simplesmente um fenómeno natural como a sobrevivência do mais forte: a maioria unia-se e fazia banquetes da vergonha e humilhação dos membros da minoria. Fossem esses membros os que tinham boas notas, os que não tinham dinheiro para comprar as calças da moda ou os que não tinham a vontade ou coragem para fumar atrás dos pavilhões da escola.
Fui ridicularizada pelas músicas de que gostava. Pelas séries que via. Pela forma de falar. E de vestir. Por algum tique inócuo. Pelos dias de "mau cabelo". Tantos anos depois, com o impacto destruidor sobre a autoconfiança já bem cimentado, e sem qualquer hipótese de cuspir redentoramente na cara daquelas cabras maldosas, apercebi-me que as ofensas não eram dirigidas especificamente aos meus gostos ou gestos. Tanto fazia eu gostar de verde como de azul, haveria sempre troça porque o motivo de escárnio não era a beleza ou fealdade das minhas inclinações, mas a própria necessidade de atacar alguém. No caso, eu.
Uma pessoa maravilhosa ensinou-me: Quando se atira carvão negro aos outros, mais depressa ficam sujas as mãos de quem atira do que a pessoa visada. Serve de pouca consolação.

29/08/2017

Diz-se que os índios na América do Norte recusavam posar para fotografias, por temerem que o seu espírito ficasse aprisionado naquela imagem estática.
Se houver alguma verdade naquela crença, gosto de pensar que as milhentas fotografias onde apareço a sorrir, nos sítios onde fui feliz, onde a minha mão foi segurada e onde os meus ombros foram abraçados, guardam em si um fragmento do meu espírito, que continua a existir feliz, como se num universo paralelo, eterno.
Também tenho fotografias onde o meu sorriso não se estendia aos olhos. O sorriso só surgiu porque faz parte, sorrir para a fotografia, mas os olhos não enganam. Não consigo resistir à tentação de comparar umas com outras, como naqueles jogos de "Descubra as Diferenças". O rosto é o mesmo, mas há meia dúzia de diferenças entre as imagens. Essas, eu não acredito que contenham o meu espírito. Nessas, onde estou triste, acho que foi o meu Espírito Original, aquele que permanece comigo, que lascou e preserva a memória triste daquele momento de sorriso de faz-de-conta.

21/08/2017

Manifesto anti-gente que diz "seja pelas alminhas"

...ou "seja pelo amor de Deus", ou "é preciso sofrer porque Nosso Senhor também sofreu", e outros chorinhos lamentosos do género.
Nunca gostei de ouvir tais coisas mas ultimamente têm-me tirado mesmo do sério! Não só porque acredito que quem governa isto tudo, seja Deus ou o Karma ou a Natureza, não precisa nem deseja ver-nos sofrer para nos amar mais, ou para nos infligir menos penas. Não precisa ser aplacado. Não vou ter um lugar melhor no lado de lá por me sujeitar aqui a dores ou incómodos que posso evitar. É ridículo pensar assim. Eu acredito num Deus/Karma/Natureza que me devolve o que eu lanço no mundo. Acredito que as coisas se obtém pela acção, por uma acção boa e construtiva, não pela paciência inerte que demonstro quando outros me estão a provocar.
Além disso, vou-me apercebendo que este tipo de ladainha também sai muitas vezes da boca das pessoas que precisamente vão beneficiar com a nossa "penitência" auto-imposta.
Não me lixem. Eu não sofro por ninguém. Nem pelas almas, nem por Deus, nem por amor de ninguém. Uma relação que se paga com sofrimento, logo à partida não merece que se sofra por ela.

07/08/2017

Ser mais uma sensação do que um pensamento

Foi a lição de hoje e vou transforma-la num mantra. Busquei segurança em palavras, regras, etiquetas e protocolos. Ser irrepreensível, ser paladina da boa conduta, assertiva, falar claramente e escrever ser erros ortográficos e colocar todas as vírgulas onde devem estar. Sem esquecer o acento no i de vírgulas. Não é corrector ortográfico. Sou eu que o ponho.
Vou-me transformando numa máquina. Sempre gostei de catalogar coisas, até a mim mesma. Fazia aqueles testes de personalidade para ver qual era o meu tipo, a minha personalidade escondida, a figura pública que é a minha alma gémea, quem eu seria se tivesse vivido na Idade Média, ou se fosse uma personagem dos Simpsons, ou uma cor, ou uma bebida... Fiz esses testes todos e mais alguns. Se eu fosse uma princesa da Disney, seria a Mulan. Se bem que, como a Bela gosta muito de ler, gosto de pensar que nos intervalos das batalhas, a Mulan se possa transformar numa Bela que devora livros na biblioteca que lhe foi oferecida pelo seu amado Monstro. Sempre atrás de rótulos, de regras e Leis Universais. Caixinhas. Tudo enfiado em caixinhas. Eu própria. E se algo não servir em caixa nenhuma, alarga-se o critério de uma das caixas existentes ou arranja-se uma nova... Ficar algo desarrumado é que não!
Refugio-me no pensamento porque me parece mais fiável e seguro. A emoção abana-me e sufoca-me. Mas sem ela também não se vive, não é verdade?

02/08/2017

Patchwork

...que é como quem diz, um trabalho feito com retalhos dos meus dias...
Dei um corte radical no cabelo, ando mais leve e pareço um tudo-nada a Fada Sininho... Gosto e recomendo.
Estourou o mês de Agosto...e pontualmente, como uma praga anunciada, cá estão as multidões na rua, que se cruzam e roçam e cumprimentam ruidosamente, enquanto os carros fazem fila e se estacionam sobre os passeios e em segunda fila. Fazem-me pecar, tantas são as pragas que rogo...
Um casal Austaliano de visita a Portugal confessa-me, emocionado, que chorou ao ver os nossos castelos com quase 1000 anos, porque em comparação a história do seu país é tão recente. A senhora sofre de uma doença que a fará cegar em breve e emociona-se perante o privilégio de poder olhar coisas que vêm de tempos tão longínquos.
Comi uma maçã enquanto olhava a relva e dei por mim a pensar naquelas coisas científicas complicadas que ouvi acerca das cores e de como a luz e os diferentes espectros de cor que a constituem são absorvidos pelos objectos, com excepção da onda de cor que não existe nelas... Ou seja, a relva verde é, na verdade, tudo menos verde. Tentei imaginá-la roxa ou azul.
Uma pessoa aproveitadora e mesquinha diz ser vítima de violência, quando o (ex)companheiro tenta abordá-la repetidamente para tentar reaver o dinheiro que lhe foi "subtraído" da conta (para eu não estar aqui a usar a palavra "roubado").
Cada vez me irrita mais a ridicularice jornalística, de ir para o meio de cenários de incêndio, a respirar fumo e faúlhas ardentes e a enfiar os microfones no nariz de bombeiros exaustos e apressados.
Também me irrita cada vez mais levar com publicidade ou, como se chama em linguagem técnica, "colocação de produto" no meio dos episódios da nossa ficção da treta.
Matriculei-me num Mestrado.
Sinto em mim uma renovada adoração pelos Red Hot, depois de ter assistido ao monumental concerto... Por Deus, eu estive sob o mesmo teto que eles! Até estou a reler a infame autobiografia do Anthony Kiedis pela segunda vez...
E pronto. É esta a actualidade local do Sistema Brisar. Para quem ainda não conhece, é o Sistema do qual Briseis é o centro.

16/07/2017

Estão a ver isto?


A imagem foi retirada daqui. E é para vos dizer que ali, algures, um daqueles pares de braços no ar sou eu.
Red Hot Chili Peppers no Super Bock Super Rock.

12/07/2017

Desafio

Digam-me se há algum ambiente caótico (tipo uma piscina cheia de miúdos ruidosos) que não se torne adorável ao som desta música... É o derradeiro apaziguador.
(nota: não vale desistir de ouvir antes de completar o primeiro minuto)


O elogio maior...

...é aquele que vê em nós, não um novo e melhor corte de cabelo, nem uma roupa nova e arrojada, mas uma luz diferente no olhar e na pele, que diz ao mundo que o interior está leve e sereno.

06/07/2017

Obrigado

Confunde muito os estrangeiros o facto de a nossa palavra de agradecimento ter declinação masculina e feminina. Mesmo a maioria dos portugueses não sabe ou não entende que quando dizemos obrigado ou obrigada isso depende do sexo da pessoa que o diz, independentemente da pessoa a quem é dito.
E hoje dei conta de uma coisa... Que até me entristeceu, confesso! Só em Português é que a palavra de agradecimento está colada a uma obrigação. Há um dever implícito ali patente, fico "obrigada" perante a outra pessoa. ...ou perante muitas pessoas, quando se ouve aquela maravilha que é o "obrigados"!
"Give thanks" significa dar graças. E Danke, em alemão, é outra versão com a mesma origem. Ou Gracias. Ou Grazie. Ou Merci, de mercê, que significa graça, favor. Todos estes idiomas que conhecemos se limitam ao agradecimento reconhecido. Só os Lusos se sobrecarregam com a obrigação humilde de não deixar a graça por pagar. Obrigado, obrigado, obrigado... Se no mesmo dia vinte vezes recebermos uma benção, vinte vezes nos obrigamos a recordar e a seu tempo retribuir a graça.
Não admira que seja triste e melancólica a Alma Lusa, com as suas Saudades e as suas Obrigações. 

30/06/2017

Só para vos dar a saber...

... que pertinho de onde moro há um sítio assim onde a água é morna...


23/06/2017

Dos Beliscões

Às vezes, a lembrança do que deixámos para trás vem doer-nos. Vem pesar na consciência a dúvida da inevitabilidade. "se eu tivesse sido mais forte", ou "se eu tivesse confiado mais" ou "se calhar ele não fez aquilo para me magoar, se calhar nem imaginava que me magoava". Mas eu descobri a receita para combater esta dúvida, e vou partilhá-lá convosco, como se de uma mezinha contra as dores de garganta se tratasse...
A receita é darmo-nos o direito de sentir dor, independentemente da intenção do outro de no-la provocar. Ele podia até gostar de dar beliscões, a ele os beliscões podiam fazê-lo rir e podia senti-los como uma demonstração de afecto. Mas a mim os beliscões doem. E não é por ele mos dar com amor que me doem menos. Ferem-me e marcam-me a pele. Eu disse-lhe que não gostava de beliscões. Ele respondeu que não compreende como é que eu me sinto magoada por eles, beliscões são uma coisa tão natural. Então eu escolho, por amor a mim própria, não me sujeitar mais a beliscões. Porque me doem, independentemente da intenção com que me são dados. Talvez ele encontre alguém que goste de receber beliscões e sejam felizes. Ou talvez ele encontre alguém que lhe dê beliscões como ele dava a mim e deixe de gostar e compreenda pela primeira vez a dor que me provocou.
Quanto a mim, eu liberto-me dos beliscões, liberto-me da dor. Quero gente que em vez de beliscões dê carícias.

17/06/2017

A vida é feita de milagres

...e um deles é ser capaz de escrever isto hoje, depois do post que escrevi ontem. Há milagres.
Não aconteceu nada. Não mudou nada, excepto dentro de mim. A luz acendeu-se. E eu vejo que se me desiludo com pessoas é porque estou a viver.
E se tenho memórias que doem e se carrego saudades e uma ternura imensa por quem já não faz parte da minha vida, é porque tudo valeu a pena. Se não houvesse esta dor, era porque nada havia a recordar ou perdas a lamentar.
Se tudo isto existe significa que eu também existo, e existem comigo escolhas e emoções.
E tudo é um milagre. Podia ser caos, a nossa vida. Mas é um milagre (quase) ordenado.

Imagem retirada da internet

16/06/2017

Há dias em que a estupidez sai à rua.

As pessoas que me rodeiam vão-me desiludindo.
A besta do facebook recebe-me com fotografias antigas porque acha que eu vou gostar de recordar que neste dia, há 4 anos atrás, estava mais feliz do que estou hoje, a passear e a descobrir sítios novos e acompanhada da pessoa que me fez tão feliz.
Toda a gente faz planos melhores do que os meus, mas sinceramente eu não tenho pachorra nem energia para fazer planos iguais ou semelhantes.
O calor deixa-me rabugenta e irritável, mas a outros parece que lhes diminui as faculdades cognitivas, só me saem empecilhos e monos.
Desespero e desanimo... não sei se o que tenho em mim é mais tristeza ou raiva.
E chafurdo neste mau humor, rebolo e cubro-me toda com ele. Não tenho vontade nem imaginação para mais. Não vou levantar a cabeça e endireitar os ombros só porque me dizem que é o melhor que posso fazer. Se não me apetece, se não estou nesse estado de espírito, vou ao menos ser verdadeira.
Se dentro de mim a luz hoje está apagada, então não vai haver artifícios luminosos nas janelas só para que quem passa de fora pense que está tudo normal. 

12/06/2017

Conheço uma pessoa que conhece um senhor... Por acaso é brasileiro mas isso não concorre para esta história. Esse senhor é casado e diz a quem quer ouvir que não precisa da mulher para nada. Não precisa da mulher para ser feliz. E ela sabe disso. E esse é o maior elogio que ele poderia fazer-lhe.
É que ele, na verdade, não precisa dela. Mas escolheu estar com ela. Ele era já um homem inteiro e pleno e gostou tanto dela que a escolheu para partilhar essa existência serena com ela. E ela aceitou-o de igual modo. Não há ali necessidade, dependência, conveniência, um cobertorzinho quente ou um aquecedor de pés. Há a vontade de partilha, deliberação em ser companheiro, ser mais e melhor do que seria ser sozinho.
Isto parece prólogo para um filme ou um livro, mas é real, segundo ouvi dessa pessoa minha conhecida. E é uma bonita lição.
Quantos de nós se identificam com aquela forma de ser? Algum dedo no ar? O meu não, certamente... Mas se der para aprender este estado de ser, eu vou consegui-lo.

11/06/2017

Sobre viver no presente, por John Steinbeck

Em "As Vinhas da Ira"

"- Mãe... a senhora está com medo da viagem, não está? (...)
- Um pouco, sim - disse. (...)
- E não pensa no que nos vai acontecer quando lá chegarmos? Não tem medo de que não seja tão bom como a gente imagina?
- Não - respondeu ela rapidamente. - Não tenho medo . Não há-de ser assim. nem quero pensar nisso. Seria o mesmo que viver muitas vidas ao mesmo tempo. Há mil vidas que nós poderíamos viver, quando chega o momento de escolhermos uma, apenas.  Se eu me puser a pensar em tudo o que poderá acontecer, não aguento. (...) para mim, o futuro resume-se na estrada que corre a meus pés."

08/06/2017

O terramoto

Há dois dias atrás a terra tremeu. Diz-se que o epicentro foi em Amarante mas o abalo fez-se sentir aqui, a 50 kms de distância, mas nem toda a gente deu por ele. Eu, que estava num segundo andar, com o piso em soalho, senti o rugido em crescendo e aos poucos a sensação gelatinosa debaixo dos pés. Quando desci ao rês-do-chão e comentei o abalo com os colegas que estavam sobre granito, eles disseram que não tinham dado por nada.
Isto fez-me pensar que, nos tremores de terra como nos abalos emocionais, estarmos no mesmo lugar não é sinónimo de sentirmos os mesmos fenómenos. Depende da altitude a que nos encontramos e do que são feitas as nossas fundações.

01/06/2017

Drive - The Cars


Esta musica tocou no casamento, quase no fim da noite daquele que foi um dos dias mais tristes da minha vida.
Dia que começou desastrosamente quando, ao cumprimenta-lo de manhã, lhe elogiei a beleza e a elegância do fato e em troca recebi um "obrigado" estéril, que não se fez acompanhar de igual retribuição. Gelei até ao fundo da alma, a visão ficou enevoada e o dia tornou-se cinzento, dentro e fora de mim.
No fim da noite passou esta música e, numa das muitas tentativas para restaurar o laço que se ia quebrando irremediavelmente, segredei-lhe que esta é uma das musicas da minha vida, que se algum dia ele quisesse comover-me com um gesto, como o noivo e a noiva fazem para surpreender e agradar um ao outro, aquela música na banda sonora faria metade do trabalho...
Abri-lhe assim o meu coração em poucas palavras. Não esperava ser chamada para dançar, ele não era dessas coisas. Mas também não esperava que as minhas palavras caíssem no vácuo, como aconteceu.
Hoje, mais de um ano depois, vejo a profecia. "you can't go on thinking nothing's wrong. Who's gonna drive you home tonight?"
Naquela noite foi ele. Mas a dor ficou plantada e a seu tempo foi arrancada.

31/05/2017

"Em toda a adversidade do destino, a condição que gera mais infelicidade é o facto de se ter sido feliz." Boécio, De Consolatione Philosophiae

É esta a suprema frustração da humanidade. Carregar memórias que, por comparação, tornam mesquinhas as perspectivas do futuro, se a nosso imaginação e fé não forem suficientemente fortes para crer que há melhor ainda por vir.

Diz que para se saber o que é o doce, tem que se conhecer o sabor do amargo. Mas voltar ao amargo depois de experimentar o doce é intolerável.

22/05/2017

Festinhas na alma

Ligo para um serviço público cá da terrinha e quando a senhora me pede para aguardar um momento enquanto vai ver da minha vida, ouço-a dizer para o lado "é uma senhora muito simpática a pedir que lhe tratemos disto".
Quando a senhora volta e me pergunta o nome para procurar a minha ficha, exclama "ah! já sei quem é! eu vi logo, assim tão simpática!".
E isto num dia em que até estou "com o toco"...

21/05/2017

Tão isto, que podia ser sobre mim

Copiei descaradamente o título de uma das rubricas habituais do "às nove no meu blogue", onde vou de quando em vez espreitar as palavras serenas e as fotos que cheiram a alfazema.
E, como já aconteceu em vezes anteriores com outros textos, desta vez  foi este post que me comoveu. Identifiquei-me. Enfiei a carapuça. Reconheci com familiaridade todos os "poucos" descritos e acrescentei mentalmente os meus próprios, os que me são exclusivos.
São palavras valorosas, e por isso as partilho. Vai fazer-vos bem lê-las. Coragem, vós que andais na busca!

18/05/2017

A super pálpebra!

Tinha que vir partilhar... Porque as minhas pernas foram chamadas de canetas durante toda a minha infância, e ainda hoje, que faço ginásio, me refiro aos meus braços como um belo par de asas de frango... Isto para saberem que sou de uma constituição "ossuda" e fraquita... Mas hoje, ao sentir uma areia no olho, cocei e perdi uma lente de contacto algures nas traseiras do meu globo ocular... depois de irritar muito a vista, a massajar, e a rebolar os olhos e espreitar para dentro das pálpebras, à procura dela sem sucesso, lá me arrastei meio cega até à óptica e pedi que alguém me acudisse... A menina, amorosa, de mãos delicadas, um anjo!...veio de cotonete na mão, levantou-me a pálpebra e com o dito tentou puxar a lente trasmalhada... Vitoriosa, agarrou, tirou e mostrou-me uma metade da lente perdida. Lá se repetiu o processo com o cotonete para se arrancar a metade restante dos recônditos do meu olho esquerdo.
Conclusão, a moça das asas de frango, parte lentes de contacto com as pálpebras. Alguém que dê valor a isto.

16/05/2017

"Cá dentro mora gente"

Ontem tive oportunidade de fazer uma sessão de terapia com uma grande Doutora, juntamente com um pequeno grupo de pessoas de tantas proveniências e experiências diferentes mas que se identificam todas com as dores da mente, da ansiedade, do sentimento de que não se é suficientemente "qualquer coisa", que vai de bom, a bonito, forte, digno, inteligente... Há para todos os gostos.
E foi muito bom estar em paz, ouvir e observar. Não aprendi nada de novo, já li muita coisa, já ouvi muita gente, já escutei sugestões de profissionais e já partilhei experiências com doentes...mas um reforço vem sempre a calhar, principalmente quando vem de uma pessoa que irradia uma aura tão serena e empática.
Todos nós guardamos lixo no nosso interior. Todos nós pensamos volta e meia "não fazes nada de jeito, és sempre a mesma coisa". E além deste mau-trato que nos infligimos, ainda aceitamos o que vem de outros, quando nos sentimos desrespeitados ou humilhados. E relembramos, e lamentamos, e ressentimos.
Mas é tudo lixo. Então, a mensagem que ontem eu trouxe é "aqui dentro não entra lixo, só entra amor. Aqui dentro (e estou a colocar as mãos sobre o coração) mora gente".
Trouxe de lá muita paz. Nem me importei por perder o comboio. Nem dei importância ao facto de ter jantado uma triste sandes de lombo fumado na estação. Dentro de mim, o lixo estava a ser descartado.

08/05/2017

Epifania



Tenho encontrado esta mensagem em pacotes de café há meses. Nunca me convenceu muito, nunca concordei... até há uns dias atrás.
Percebi que a nuvem, sozinha, não esconde muito. Mas se a janela que nós tivermos para o céu for pequena, basta uma nuvem mínima para a obstruir. E esse foi o meu problema durante muito tempo. Janelas estreitas.

04/05/2017

O apelo da mediocridade

Todos já o ouvimos. É o canto da sereia que nos conduz à perdição, sabemo-lo, mas é tão encantador que fazemos de conta que nunca nos contaram as histórias e os avisos; um canto tão belo e sedutor só pode vir de algo bom e trazer em si a felicidade que esperamos e merecemos.
E depois o encantamento quebra-se, vivemos frustrados, tristes, enganados. Esta não é a vida para a qual nos inscrevemos, houve ali algures uma quebra de contrato. Faz parte da ética do acordo não desistir à primeira contrariedade e é por isso que insistimos, fazemos das tripas coração, ignoramos a azia danada e a revolta que nos morde, e perdoamos, damos a outra face, admitimos que talvez também tenhamos a nossa parte na culpa. Em menos de nada voltamos a dar com a cara no muro frio que é a desilusão. E é nesse momento que o canto da sereia é mais insistente, violento e humilhante, porque nos berra que temos o que merecemos; que é melhor aquilo do que coisa nenhuma; que toda a gente tem problemas e outros também vivem em fingimento: vivem num lar frio mas são vistos em esplanadas com o namorado, passam dias sem um gesto de amor mas passam férias em sítios luxuosos, invejam a simplicidade da vida de toda a gente mas sabem que os outros invejam a fachada que representam.
E eu sei que vocês estão neste momento a pensar num punhado de pessoas próximas que cederam ao canto das sereias, cederam ao canto do "isto é o melhor que consigo arranjar". Mas essas pessoas precisam de cantar, a partir de dentro, "isso não me chega, isso está abaixo de mim, sou melhor do que isso". Às vezes as pessoas não sabem que têm essa voz lá dentro, é preciso alguém ajudá-las a ouvir.

26/04/2017

O que se faz com os desenganos? E com o sentimento que eles destroem, o que se faz?
O que se faz quando aquela colina que amámos e admirámos por nos parecer harmoniosa é afinal, nas palavras de quem a viu de perto, um aterro fedorento e artificial?
Ou quando uma história que ouvimos e interiorizámos e com cuja recordação nos deleitamos, se revela afinal falsa, errada, mal contada. Não foi assim que aconteceu. Não existe.
O que fazemos com aquele carinho, com o sentimento que alimentámos? Onde é que guardamos a realidade desenganada? Foi falsa mas existiu em nós, no nosso coração e no nosso imaginário. E onde colocamos a nova realidade, a que é "realmente real"? Pomo-la em lugar de destaque e à vista, para nos lembrarmos de que não devemos deleitar-nos outra vez com a ilusão que tínhamos? Ou ignoramo-la, não pensamos nela e deixamos o nosso instinto fugir para a ilusão que se habituou a aceitar como verdadeira, apesar de ser tudo uma historieta barata?
Não sei a resposta a estas perguntas. Não sei o que vou ser capaz de fazer com a minha "tralha" mental... Mas sou muito, MUITO organizada e metódica. Sei que, de uma forma ou de outra, vou arrumar isto num isntante!

12/04/2017

A mota

Amigo querido, a quem falo pouco, e vejo menos ainda... Hoje ligou-me, enquanto estava à espera de algo, resolveu ocupar o seu tempo comigo... Tão bom! Disse-me que comprou uma mota e eu, em tom de brincadeira, fiz-lhe notar que tem que andar sempre com dois capacetes, um para ele e outro para as meninas que hão-de querer dar umas voltinhas. Respondeu-me de forma decidida que tem capacete para ele, quem quiser andar com ele tem que se arranjar...
A conversa derivou para o trabalho, que nos ocupa os dias, para os amores que nos desgostam e deixam um vazio, e aquela ligeira melancolia que nos ataca dez anos depois de sair da faculdade por verificarmos que não estamos no ponto onde imaginámos na altura que estaríamos e que a solidão é companheira mais vezes do que o que seria desejável. E depois ele disse coisas maravilhosas. Coisas que eu já sabia mas que às vezes esqueço... Disse que a aprendizagem mais importante que fez nos últimos tempos (inclusivamente com a ajuda dos seus romances efémeros) foi aprender a estar bem sozinho. A fazer as coisas por si próprio, por decisão e vontade sua, sem andar ao colo ou à boleia de alguém. Em suma, a validar em si próprio a sua vida e os passos que dá. E referiu que a compra da mota é no fundo uma expressão disso mesmo, porque numa mota é só ele sozinho, nao tem, como num carro, 4 lugares vazios à sua volta, ou entao cheios pela conveniência de uma boleia e não por verdadeira vontade de estar com ele.
E então, como um circulo que se fecha, relembrámos o pormenor de andar com um único capacete. Porque ele conta com ele. É inteiro. Quem vier, que venha inteiro também.

09/04/2017

"médico, cura-te a ti mesmo"

...ou, já que estamos na Quaresma, "Jesus, salvaste os outros, salva-te a ti mesmo".
Sou perita em confortar outros, em fazer-lhes ver que, apesar das tristezas que vêm regularmente, como marés, as suas vidas estão cheias de beleza, de tesouros... As oportunidades perdidas são, na verdade, escolhas feitas. Os erros são manifestações de humanidade e a aprendizagem que deles vem é valiosa. As cicatrizes são património histórico. À custa das muitas terapias que já fiz, em busca da serenidade para mim, aprendi muito e presumo muitas vezes compreender as feridas emocionais de cada um...
E depois fico só. E reparo em mim. E às vezes a beleza do dia não é suficiente. Não chega para sentir que vale a pena estar aqui. Às vezes, a beleza do dia parece exactamente o contrário, parece ser uma afirmação irónica contra o meu estado de alma tantas vezes melancólico. Os meus próprios tesouros e as escolhas que fiz parecem mesquinhos. Não me sinto corajosa, sinto-me pequena. Sinto o peso do que me falta. E não há distracção que me valha, porque em todas elas sinto a pena do que já não tenho, do que está ausente.
E assim, veio-me esta ideia... Preciso fazer comigo, aquilo que faço pelos outros. Levantar-me a mim mesma.

02/04/2017

Meditação de hoje

Como me ensinou um amigo, "não procures a felicidade no mesmo sítio onde a perdeste". Como tanta gente cita, "tolice é fazer as mesmas coisas e esperar um resultado diferente". Como hoje reflectiu a minha mãe, acerca do seu próprio infeliz casamento, "uma pessoa deixa quase de ser ela própria, deixa as suas alegrias, por outra pessoa, e para quê? O que é que isso nos traz?".
É muito fácil, é quase irresistível, perdermo-nos no labirinto destas cogitações... Mas depois de sairmos do labirinto, sacode-se os ombros, respira-se fundo, limpam-se as lágrimas e segue-se em frente. Está sol e cheira a flores na estrada.

19/03/2017

Isto é onde vivo


Há quem diga "se não estás bem, muda-te. Não és uma árvore". Eu às vezes não estou bem... mas mudar-me nunca me passa pela cabeça. Não nasci árvore, mas não me vejo a abandonar isto de ânimo leve...

10/03/2017

Gostei tanto que vou partilhar

...este POST do Pedro Coimbra, do Devaneios a Oriente. Uma lição para todos, para um mundo mais justo.

08/03/2017

É Dia Internacional da Mulher...

...e eu não gosto. Estão a estragá-lo. Tornou-se no dia em que as mulher censuram as poucas que não ligam à data, que não vão arranjar cabelos e unhas e jantar com ruído, beber demais e fazer piadas de que os homens estão abandonados e que não são nada sem elas... Tenho cá para mim que eles estão é todos reunidos algures a celebrar uma noite de sossego...!
As mulheres exigem louvores, flores e chocolates porque sim, porque são mulheres, porque Deus lhes deu essa felicidade? A maioria não pensa nas Sufragistas, no incêndio da fábrica em Nova Iorque em 1911, no gigantesco protesto na Rússia Czarista tão violentamente reprimido... E também não pensam no que há ainda por fazer, no nosso mundo dito moderno e desenvolvido, para se chegar à verdadeira igualdade e justiça sem ligar a géneros.

07/03/2017

Pela Teté

"Teté" é mais um dos milhares, milhões, miríades de nomes que povoam esta blogosfera... O espaço da Teté, o Quiproquó recebe a minha visita ocasionalmente, os meus comentários, os meus sorrisos e apreciação pela partilha dos momentos e das delícias que fazem as nossas vidas. Como já referi num comentário no blog de um "amigo comum", pela natureza dos seus textos, imaginava a Teté como uma menina, uma jovem, uma sonhadora. E esta descrição era correcta, excepto no que respeita à idade expressa no BI.
A Teté deixou este mundo, não só o da blogosfera, mas o mundo real. Ou, pelo menos, da "realidade" que conhecemos e aceitamos. Eu acredito que haverá realidades novas e maiores para a energia e alma que somos.
Esta pessoa que nunca vi, cuja voz nunca ouvi, cujas palavras escritas chegaram até mim sem hora nem lugar marcado, e que agora partiu, comoveu-me e fez-me pensar em vós, todos vós que me leis, assiduamente, ou uma vez por outra, ou uma vez para nunca mais... Porque estas personagens que somos aqui, que muitas vezes não são reais, mas pseudónimos e alter-egos, são uma janela para o nosso interior mais autêntico... E reconhecer isso é reconhecer que somos todos íntimos uns dos outros.

À Teté, um até sempre e um beijinho a todos os bloggers que manifestaram os seus sentimentos bonitos nos seus espaços.

27/02/2017

Como galinhas decapitadas...

...as pessoas. A deambular desgovernadas, esguichando sangue para todo o lado, até por fim embater em algo que as deixe ali encostadas e estrebuchar o resto da energia vital.
Não somos assim, tantas vezes? Temos consciência do que fazemos? De para onde vamos? Do que somos?
Achei sempre, de uma forma nada lógica mas instintiva, que quem opta por uma vida espiritual, quem se propõe desbastar a selva que é o emaranhado das suas próprias emoções, os seus sentimentos, a sua essência primordial, o faz porque a "viagem" pelo mundo exterior redundou de alguma forma em fracasso. Por um desgosto amoroso, por uma morte, por uma doença traiçoeira, por um descontentamento generalizado ou uma sensação de desconexão com o mundo "normal". Enfim, por uma Dor. E as pessoas iniciam essa jornada como quem toma uma anestesia, porque a tarefa é tão absorvente, interminável, que tirará o foco do restante.
Pensei sempre assim. Ainda penso, mesmo vendo-me eu própria numa jornada paralela, em que tento conhecer-me, em que medito, em que busco mais espiritualidade, mais amor pelas coisas, cultivar a gratidão, cuidar do meu corpo como se de um templo se tratasse...
E olho para fora de mim. Para quem tem tão poucas preocupações deste género. Para quem consegue resumir o sentido da sua vida nas coisas que realmente importam ou nas mais superficiais, conforme se queira olhar para as coisas. Deixar um legado no campo profissional; constituir uma família, uma prole, uma herança.
Pergunto-me se essas pessoas se colocarão por vezes as mesmas questões que eu. Se sim, são muito bravas por conseguirem justificar-se e continuar o seu rumo de uma forma simples e directa. Mas às vezes acho que não... Que estão anestesiados. Que as pessoas mais brilhantes e extrovertidas têm é horror de estar sós. Que uma mãe que deixa todos os outros papeis de sua vida para ser só e a 100% Mãe a tempo inteiro não tem um sentido definido para a sua própria vida. Que a pessoa que se desgasta no trabalho não vai ficar contente quando tiver uma casa maior, um carro melhor, umas férias mais luxuosas, essa busca nunca vai acabar, até ao dia em que o dinheiro que lhe custou a saúde vá ser aplicado na tentativa de trazer a saúde de volta.
E quando penso nisto, não penso que entre as pessoas que empreendem a busca pelo auto-conhecimento e vivem numa nota constante e serena, e as pessoas que vivem a saltar etapas na vida, numa busca também por qualquer coisa... Nao penso que umas estejam certas e outras não. Penso que todos buscamos o mesmo: a felicidade e um sentido para nos fazer sair da cama todos os dias. Embora sejamos como galinhas decapitadas, porque corremos em círculos tantas vezes, sem vermos bem onde esse caminho nos está a levar...

20/02/2017

Igual... Mas ao contrário.

Há quase quatro anos atrás eu era Leve, era assim.

Hoje sou leve ainda. Tenho mais penas no coração e mais memórias na mente do que naquela altura, mas pelo caminho também larguei algum peso que me oprimia... Por isso, continuo leve. E faço por caminhar direita, não por efeito do amor que alguém me vota, mas pelo amor que vou dedicando a mim, que me enche de orgulho e de optimismo. Os dias já estão a ficar maiores. É o renascer.

15/02/2017

Para onde vão as palavras que calamos? Os monólogos que apenas imaginamos? As mil variações possíveis daquela conversa, caso tivéssemos usado uma palavra diferente ou posto aquela vírgula noutro lugar?
Depois de muito cogitar nisto, tenho para mim que as palavras ficam em nós, percorrem-nos o corpo, como se viajassem à boleia da corrente sanguínea, visitam vários membros e órgãos, causando diferentes sensações em cada um, voltam eventualmente ao coração trazendo sentimentos à tona, passam pelos pulmões, causando-nos aflição asmática e trazendo tristeza (a medicina chinesa, na sua lógica tão bela, diz que os pulmões são o órgão que mais sofre o sentimento de tristeza, que libertamos através de choro e suspiros). Lá acabam as palavras por ascender ao cérebro e renova-se a simulação de diálogos, de argumentos, de réplicas imaginadas, de finais felizes e redentores ou de rancores acesos e inapagáveis.
Quanto tempo durará? Quanto tempo resistem essas palavras nesse circuito ininterrupto? Será talvez um pouco como quando o corpo exposto a uma substância nociva se vai regenerando, dia após dia, mês após mês... Mas sem nunca desaparecer totalmente.

11/02/2017

Barómetros

Sou viciada neles. Não para medir a pressão atmosférica, literalmente, mas a pressão na minha atmosfera. No Sistema Solar onde Briseis é o centro, o "Sistema Brisar". Os barómetros dizem-me se há níveis anormais de actividade na atmosfera... Como hoje, em que me veio à cabeça, vinda de lugar não identificado, a música dos Kodaline

You make my heart feel like it's summer
When the rain is pouring down
You make my whole world feel so right when it's wrong
That's how i know you are the one.

E eu suspirei de alívio, porque o barómetro disse que estou bem. Emocionei-me com esta música, porque me fez pensar no meu ex-Amor mas, ao mesmo tempo, vi que as palavras já não me serviam, já não eram a minha verdade. Já não era verão no meu coração há tempo demais... e isso significa que estou onde devo estar. Que tomei a decisão certa. Porque aquela música é o que o amor deve ser. Ela serve de barómetro.

02/02/2017

Ode ao Egoísmo

"egoísmo, não, credo! Que coisa feia!"
Deus me livre de algum dia alguém pensar isso de mim... Tiro um bocadinho, o pedaço maior fica para os outros. Não é justo, a mim faz-me mais falta do que a eles, mas se o reivindicar poderei ficar rotulada de egoísta. Assim, tiro só um bocadinho. E se vier mais alguém sou a primeira a oferecer-me para dividir o meu pedaço.

Mas agora basta. O egoísmo é uma manifestação de amor próprio, de respeito próprio. É sermos advogados de nós mesmos. Abri os olhos para esta novidade há dias, e andei a mariná-lá, lentamente. Com medo de exagerar na dose. Egoísmo não é o mesmo que egotismo. O primeiro é bom, é o que diz "primeiro eu. Depois tu." O segundo é catastrófico, é o que diz "Só eu."
O egoísmo foi o patrão de algumas atitudes que tenho vindo a tomar... Não ofendi ninguém, respeitei toda a gente. Não fiz mal a ninguém, fiz bem a mim.
Aspiro ser a pessoa que os outros um dia olharão com admiração e dirão "olha só, vê como ela é egoísta!", como se fosse mesmo uma virtude. Como se fosse exemplar.

25/01/2017

As palavras

As coisas que as pessoas dizem constituem uma parte pequenina daquilo que ouvimos. O resto, a maior parte, é constituído por aquilo que o nosso entendimento lhes acrescenta.
Hoje, acompanhada do meu livro a apanhar sol no cais, um casal velhinho, que não conheço, passou junto a mim e a senhora saudou-me alegremente dizendo: "Assim é que está bem, sozinha... A ler, a meditar...". Olhei e sorri-lhes enquanto passavam e fiquei com aquelas palavras a retinir... Eu estava, de facto, bem, ali sozinha. Estava a ler. E ia fazendo uns pequenos intervalos para me permitir meditar no calor do sol, no burburinho do rio, na alegria do cão que se atirava à agua uma e outra vez em perseguição dos patos. Ali é que eu estava bem.
Mas, na verdade, a minha mente interpretou as palavras de outra forma. Da forma que reconhece que, mesmo que quisesse, naquele momento, eu nao poderia estar senão sozinha. Que estou sozinha, de facto, agora que ninguém partilha a sua existência comigo.
E dei graças por ter vindo apenas esse pensamente triste, em vez do ominoso e sentencioso "aí é que estás bem, sozinha, porque não sabes ser de outra forma e é isso que mereces e é assim que hás-de continuar".
A amorosa senhora não teve noção que, se a imaginaçãome tivesse batido para o lado errado, eu poderia ter-lhe sorrido e, a seguir, ir para casa para cortar os pulsos... Perdoem-me o exagero, mas espantei-me verdadeiramente com a constatação de que, mesmo nas palavras dos outros, é apenas a nossa consciência que ouvimos. Por isso, cuidemos dela com amor e dedicação, para que ela nos cante, em vez de nos condenar.

24/01/2017

Sabedoria graffitada

Numa das milhares de ruínhas que descem da Sé do Porto em direcção ao rio, há um nicho onde se lê num graffiti simples,"we all find your place in this world". (imagino que o artista quereria dizer "our place", mas não é grave.) Tirei uma foto ao meu ex-Amor junto a essa parede, no dia em que lhe mostrei a Invicta, há tanto tempo. Parece que foi ontem. Parece que foi há séculos.
Lá perto, numa outra ruela, tirou-me ele uma foto diante de uma parede em ruínas onde se lê "Quantas cidades tenho em mim?" 
Guardo com carinho ambas as imagens.
Visitei agora a Invicta para mais uma consulta, mais um passo na busca da minha Cura, da minha Paz. E passeei em ruas que ficaram por visitar aquando da outra visita, com ele. Mas não encontrei graffitis. Li na capa de um livro, numa montra, "Ostra feliz não faz pérolas", e isso bastou-me.
Viajei no comboio, no lugar número 13. Não me importei com o azar porque, pelo menos, o lugar era à janela.

Fica a foto de uma gaivota atrevida que, confesso, temi que depois de posar para a foto me atacasse de repente...!

16/01/2017

Flores de Janeiro

Eis que no rigor do inverno, quando menos era esperado, o "cacto" lá de casa resolve rebentar de cor-de-rosa... e a primeira flor, muito precoce em relação às outras, alegrou-me como se duma promessa se tratasse.

(quem vem aqui ao blog sabe que não sou nada dada a postar fotos, muito menos da minha autoria... a ver se com o novo ano isso muda um bocadinho...)

14/01/2017

Será a felicidade invisível?

Lembro-me de ouvir dizer que só damos valor ao que nao temos. Que só percebemos que fomos felizes quando a felicidade nos deixa. Mas eu não.
Eu soube quando fui feliz. Muitas vezes, eu fechei os olhos e pensei o quanto era abençoada, o quanto eu desejava que o tempo congelasse ali, naquele momento; eu inalei ar que sabia ser perfumado daquela maneira única que nos é dada tão raramente pela felicidade. Eu nao irei nunca dizer "naquele momento, fui mais feliz do que nunca, sem o saber", ou "olhando para trás, vejo agora que aqueles foram os tempos mais felizes da minha vida". Não. Eu vi a felicidade quando ela me visitou, eu olhei-a, acenei-lhe ao de leve, como quem diz "tou a ver-te", e desejei e implorei que ela se demorasse... E ela demorou-se o tempo que teve que ser. E agora foi abençoar outros.
Mas sou bem-aventurada até nisto, no facto de não ter sido cega à felicidade quando ela me visitou.

09/01/2017

Só não chora quem não tem coração



Everytime we say goodbye I die a little
Everytime we say goodbye I wonder why a little
Why the gods above me, who must be in the know, think so little of me?
They allow you to go.

When you're near there's such an air of spring about it
I can hear a lark somewhere begin to sing about it
There's no love song finner but how strange is the change from major to minor
Everytime we say goodbye

06/01/2017

Apaguei a luz e sentei-me confortavelmente, pus uma musica suave e tencionava fazer a minha meditação diária... É uma forma de terapia, a par das consultas com a psicóloga que já faço há tantos meses, faço agora estas meditações diárias, em que acalmo o meu ritmo cardíaco e mental, olho para dentro de mim, para o que sou, em contraste com o que aparento ser, e o que gostaria de ser, o que preciso melhorar, a nível dos meus pensamentos e sentimentos, para deixar de ser tao susceptível a ataques de ansiedade, medos e inseguranças. É um momento de pausa diário, que costumo fazer à noite, mas hoje aproveitei estar de folga para o fazer ao final da tarde, enquanto a casa está vazia...
No minuto em que inicio o processo estoura a tempestade no apartamento de cima; a familia acaba de chegar a casa e são só gritos loucos e coléricos de uma, respostas amedrontadas de outra, a voz do pai que tenta pedir calma, mais gritos e rugidos de revolta, de vergonha, palavrões, maldições proferidas, e "estou farta", e "tenho vergonha", o bebé chora, ouvem-se soluços convulsivos de uma, e nova rajada de gritos e insultos de outro lado...
Não há álcool naquela família. Não há vícios, nem pobreza, nem vergonhas que sejam o escândalo da rua e dos vizinhos... Há apenas uma família, que como todas as outras tem os seus problemas quotidianos, os seus choques de personalidade, o cansaço que traz para casa depois do trabalho... E que ultimamente nao tem sido capaz de lidar com isso sem ser desta maneira ruidosa e que causa tanta dor aos que ali vivem, e que hoje me perturbou tanto.
Ia fazer a minha meditação mas há uma familia a desfazer-se por cima da minha cabeça, a dizer coisas tao horríveis, a arranhar a voz para cuspir palavras com intenção de magoar...
Uma das coisas que peço na minha meditação é para deixar o medo e a insegurança, mas hoje esta tempestade que veio ribombar sobre a minha cabeça trouxe memórias e a reacção instintiva que aprendi durante tantos anos, que é encolher-me e chorar em silêncio.

02/01/2017

"Carry your own weight"

É o meu desejo para mim e para toda a gente no novo ano. Sem especificações de paz, saúde, trabalho ou amor... venha de lá o que vier, que cada um seja capaz de se carregar a si próprio, tomar as suas decisões, assumir as suas responsabilidades. Em suma, tomar nas suas mãos o controlo da sua própria vida e, sobretudo, viver bem consigo porque, não importa as companhias que temos ao nosso lado, quando fechamos os olhos à noite, na cama, é só o interior da nossa própria cabeça que vemos.



You can run if you want to, disappear on an airplane
But you can't hide from yourself, you got to carry your own weight
Buy a ticket on a long train, if you think it's your escape
But at the end of the day you got to carry your own weight

Pasa la vida así, así
Pasa la vida, pasa
At the end of the day you got to carry your own weight

Now you can run and you can think that everybody is gonna give you what you need but
At the end of the day you got to carry your own weight
Yeah and you can run and you can also try to hide away from your responsibility
At the end of the day you got to carry your own weight

Ay ay ay pasa la vida, pasa la vida
Pasa la vida, pa ti pa mi, pasa la vida

You can run if you want to, disappear on an airplane
But you can't hide from yourself, you got to carry your own weight
Buy a ticket on a long train, if you think it's your escape
But at the end of the day you got to carry your own weight

Pasa la vida así, así
Pasa la vida, pasa
At the end of the day you got to carry your own weight

Cuz in life there will be suffering, no matter if you're running
Or looking for love you may not get enough
It's an inside job and it will make you tuff
If you're rough around the edges, it will clear it up

You can hide but you can't seek, remember that you're free
Nobody gonna give you what you need
At the end of the day you got to carry your own weight

You can run if you want to, disappear on an airplane
But you can't hide from yourself, you got to carry your own weight
Buy a ticket on a long train, if you think it's your escape
But at the end of the day you got to carry your own weight

At the end of the day you got to carry your own
No matther witch path you take when you're wrong
You gotta be ok with being alone
Your body is a temple, you better make it you home
Is where you heart is beating
You are not the only one who is bleeding
All you need is the air you are breathing
And you just keep on believin' in
You and everything you do
Then moove aside and let the dream come true
If there's a part of you that wants it too
Then you still got lot to get it worth to do

Así, así ni pa ti ni pa mi
Ni pa ti ni pa mi
Así, así, así
Buy a ticket on a long train, if you think it's your escape
But at the end of the day you got to carry your own weight