22/05/2017

Festinhas na alma

Ligo para um serviço público cá da terrinha e quando a senhora me pede para aguardar um momento enquanto vai ver da minha vida, ouço-a dizer para o lado "é uma senhora muito simpática a pedir que lhe tratemos disto".
Quando a senhora volta e me pergunta o nome para procurar a minha ficha, exclama "ah! já sei quem é! eu vi logo, assim tão simpática!".
E isto num dia em que até estou "com o toco"...

21/05/2017

Tão isto, que podia ser sobre mim

Copiei descaradamente o título de uma das rubricas habituais do "às nove no meu blogue", onde vou de quando em vez espreitar as palavras serenas e as fotos que cheiram a alfazema.
E, como já aconteceu em vezes anteriores com outros textos, desta vez  foi este post que me comoveu. Identifiquei-me. Enfiei a carapuça. Reconheci com familiaridade todos os "poucos" descritos e acrescentei mentalmente os meus próprios, os que me são exclusivos.
São palavras valorosas, e por isso as partilho. Vai fazer-vos bem lê-las. Coragem, vós que andais na busca!

18/05/2017

A super pálpebra!

Tinha que vir partilhar... Porque as minhas pernas foram chamadas de canetas durante toda a minha infância, e ainda hoje, que faço ginásio, me refiro aos meus braços como um belo par de asas de frango... Isto para saberem que sou de uma constituição "ossuda" e fraquita... Mas hoje, ao sentir uma areia no olho, cocei e perdi uma lente de contacto algures nas traseiras do meu globo ocular... depois de irritar muito a vista, a massajar, e a rebolar os olhos e espreitar para dentro das pálpebras, à procura dela sem sucesso, lá me arrastei meio cega até à óptica e pedi que alguém me acudisse... A menina, amorosa, de mãos delicadas, um anjo!...veio de cotonete na mão, levantou-me a pálpebra e com o dito tentou puxar a lente trasmalhada... Vitoriosa, agarrou, tirou e mostrou-me uma metade da lente perdida. Lá se repetiu o processo com o cotonete para se arrancar a metade restante dos recônditos do meu olho esquerdo.
Conclusão, a moça das asas de frango, parte lentes de contacto com as pálpebras. Alguém que dê valor a isto.

16/05/2017

"Cá dentro mora gente"

Ontem tive oportunidade de fazer uma sessão de terapia com uma grande Doutora, juntamente com um pequeno grupo de pessoas de tantas proveniências e experiências diferentes mas que se identificam todas com as dores da mente, da ansiedade, do sentimento de que não se é suficientemente "qualquer coisa", que vai de bom, a bonito, forte, digno, inteligente... Há para todos os gostos.
E foi muito bom estar em paz, ouvir e observar. Não aprendi nada de novo, já li muita coisa, já ouvi muita gente, já escutei sugestões de profissionais e já partilhei experiências com doentes...mas um reforço vem sempre a calhar, principalmente quando vem de uma pessoa que irradia uma aura tão serena e empática.
Todos nós guardamos lixo no nosso interior. Todos nós pensamos volta e meia "não fazes nada de jeito, és sempre a mesma coisa". E além deste mau-trato que nos infligimos, ainda aceitamos o que vem de outros, quando nos sentimos desrespeitados ou humilhados. E relembramos, e lamentamos, e ressentimos.
Mas é tudo lixo. Então, a mensagem que ontem eu trouxe é "aqui dentro não entra lixo, só entra amor. Aqui dentro (e estou a colocar as mãos sobre o coração) mora gente".
Trouxe de lá muita paz. Nem me importei por perder o comboio. Nem dei importância ao facto de ter jantado uma triste sandes de lombo fumado na estação. Dentro de mim, o lixo estava a ser descartado.

08/05/2017

Epifania



Tenho encontrado esta mensagem em pacotes de café há meses. Nunca me convenceu muito, nunca concordei... até há uns dias atrás.
Percebi que a nuvem, sozinha, não esconde muito. Mas se a janela que nós tivermos para o céu for pequena, basta uma nuvem mínima para a obstruir. E esse foi o meu problema durante muito tempo. Janelas estreitas.

04/05/2017

O apelo da mediocridade

Todos já o ouvimos. É o canto da sereia que nos conduz à perdição, sabemo-lo, mas é tão encantador que fazemos de conta que nunca nos contaram as histórias e os avisos; um canto tão belo e sedutor só pode vir de algo bom e trazer em si a felicidade que esperamos e merecemos.
E depois o encantamento quebra-se, vivemos frustrados, tristes, enganados. Esta não é a vida para a qual nos inscrevemos, houve ali algures uma quebra de contrato. Faz parte da ética do acordo não desistir à primeira contrariedade e é por isso que insistimos, fazemos das tripas coração, ignoramos a azia danada e a revolta que nos morde, e perdoamos, damos a outra face, admitimos que talvez também tenhamos a nossa parte na culpa. Em menos de nada voltamos a dar com a cara no muro frio que é a desilusão. E é nesse momento que o canto da sereia é mais insistente, violento e humilhante, porque nos berra que temos o que merecemos; que é melhor aquilo do que coisa nenhuma; que toda a gente tem problemas e outros também vivem em fingimento: vivem num lar frio mas são vistos em esplanadas com o namorado, passam dias sem um gesto de amor mas passam férias em sítios luxuosos, invejam a simplicidade da vida de toda a gente mas sabem que os outros invejam a fachada que representam.
E eu sei que vocês estão neste momento a pensar num punhado de pessoas próximas que cederam ao canto das sereias, cederam ao canto do "isto é o melhor que consigo arranjar". Mas essas pessoas precisam de cantar, a partir de dentro, "isso não me chega, isso está abaixo de mim, sou melhor do que isso". Às vezes as pessoas não sabem que têm essa voz lá dentro, é preciso alguém ajudá-las a ouvir.